quinta-feira, 14 de julho de 2011

Ia escrever sobre você de novo. Desisti.
Tenho perdido muito tempo com você.
Tenho perdido todo o meu tempo com você.
Me perdi em você. Perdi você. Agora me perco por você. Perco todo meu tempo com você.
As vezes perco meu tempo me perguntando se tudo isso é só perda de tempo. Será que você perde seu tempo comigo?
Isso não é sobre você. Isso é sobre eu tentando pensar em outras coisas.
Você está
Em todo lugar que eu não vou
Em toda noite que não durmo
Em todo plano que não concluo
Com todo mundo que não conheço
Em toda ligação que não atendo
Em cada mensagem que não envio
Em cada cama que não me deito
Em cada sobremesa que não como
Em todo tempo que não faço
Em toda hora que não estou calmo
Em toda sala sem barulho
Em todo abraço que não recebo
Em toda vez que eu desisto
Em todas as roupas que eu compro
Em todas alternativas que não escrevo.

latex

Eu me lembro bem.
Lembro de abrir a porta do carro, pisar primeiro com o pé esquerdo na rua, me enroscar com o outro, dar uma tropeçada, olhar para os lados e me certificar que ninguém viu aquilo. Eu me lembro do desenho sinuoso e escuro na rua já escura no asfalto já escuro onde o desenho cintilava com o reflexo das lâmpadas da rua. 
Lembro de tudo quieto, da brisa fria da madrugada, dos desenhos arredondados e alaranjados que as lâmpadas incandescentes faziam até dobrar a esquina, com um abismo de sombra entre elas. Comigo dentro do abismo de sombras. Com uma mancha escura entre meus sapatos, entre as sombras entre as lâmpadas.
Eu lembro de tudo quieto. Eu lembro do frio na barriga, da sensação de querer acordar de um sonho, da sensação de querer estar sonhando, eu lembro do esforço para acordar na minha cama e me sentir aliviado por estar atrasado para o trabalho.
Eu lembro do som dos caminhões nas ruas paralelas, da vitrine semi-acesa da loja de conveniência fechada, do apito de um guarda a 1km de distância, da minha cabeça a 40km de distância.
Eu lembro de olhar para o painel do carro indo para algum lugar vindo de algum lugar para fazer alguma coisa, quando um baque seco e uma turbulência que fizeram meus pensamentos passarem de uma fumaça densa diante de meus olhos que olhavam para um ponto imaginario, para se tornar um ponto de exclamação seguido de um calafrio. Aquela hora que você acorda no acordar. A hora que tudo deixa de ser um longo túnel esticado pela distração, para tudo virar vida real esfregada no seu nariz. Essas coisas acontecem. 
Quando o carro parou, lembro de abrir a porta, pisar primeiro com o pé esquerdo na rua, me enroscar com o outro, dar uma tropeçada, olhar para os lados e me certificar que ninguém viu aquilo.
Eu lembro do desenho sinuoso que a mancha do lado do carro fazia no chão. As vezes parecia um jacaré, as vezes fazia o desenho de uma mão nosferática que se estendia até o outro lado, as vezes eu não pensava no formato que ela fazia, naqueles cinco segundos que me esforcei para entender o que estava acontecendo.
Eu lembro bem do corpo no chão. Eu lembro do jacaré e da mão do Nosferatu desenhada no chão saindo por debaixo do corpo. A mancha que aos poucos se expandia e perdia a forma, se tornando um círculo vermelho e preto no meio dos círculos alaranjados da rua.
Eu lembro de um corpo nu, murcho e rosado. Um corpo com pele que refletia quase como o sangue no chão. Um corpo amassado como papel, amassado como um desenho animado atropelado por um carro. Eu lembro de cabelos loiros enrolados, entrelaçados no corpo morto e retorcido como uma camisinha usada. 
Eu lembro do frio na barriga, da sensação de querer acordar de um sonho, da sensação de querer estar sonhando. Eu me lembro de fraturas expostas, fragmentos de osso, arcadas dentárias, capas de gordura espumosa e amarela espalhada pelo chão, lembro de espartilhos e cintas-liga misturadas com uma peruca loira misturada com látex misturada com a grande interrogação que meus pensamentos viraram.
Me lembro de olhar para cima, e alguém ofuscado pelo brilho do círculo alaranjado da lâmpada incandescente gritando “ele acabou de pular”. Da ponte, eu digo. Ele pulou. 
-“ele não morreu da queda. alguns carros passaram por cima”.
Eu lembro do frio na barriga.
-“Isso acontece sempre, mas esse aí era pervertido. Solitário. Pulou com uma boneca inflável. Você precisava ver o barulho que fez quando o primeiro carro passou. Nem foi da batida, foi da boneca explodindo mesmo.”
Por algum motivo, eu lembrei do que eu comi no almoço.
-“Se eu fosse você, iria embora. Esse aí era pervertido, as pessoas passaram por cima de propósito, parece. Imagina que vergonha, morrer assim desfigurado e pior ainda, com essa boneca do lado. Imaginam o que vão pensar?”
Por algum motivo, eu lembrei do que eu andava acessando na internet.
-“Ele disse que era mais fácil trepar com uma boneca e se atirar de uma ponte do que achar alguém que não fosse maluca.”
Lembro de perguntar se atirar-se de uma ponte era uma atitude de alguém que não fosse maluca também.
-“Se é normal eu não sei. Só sei que não foi o primeiro.”
Lembro de dar dois passos e ver a sola dos meus sapatos desenhada no chão, um carimbo perfeito feito de sangue, gordura e cabelo de poliéster. 
-“Mas acho que ele pulou porque descobriu que era doente também. Bom, pelo menos com essa boneca junto, ele não poderia ser normal”.
Lembro de ter perguntado se não estávamos fugindo do ponto principal da coisa.
-“Olha meu senhor, você pode estar em pedaços numa rua escura durante a noite, mas se você tiver alguma coisa que te faça parecer um pervertido, é a única coisa que todo mundo vai lembrar.”