quinta-feira, 14 de julho de 2011

latex

Eu me lembro bem.
Lembro de abrir a porta do carro, pisar primeiro com o pé esquerdo na rua, me enroscar com o outro, dar uma tropeçada, olhar para os lados e me certificar que ninguém viu aquilo. Eu me lembro do desenho sinuoso e escuro na rua já escura no asfalto já escuro onde o desenho cintilava com o reflexo das lâmpadas da rua. 
Lembro de tudo quieto, da brisa fria da madrugada, dos desenhos arredondados e alaranjados que as lâmpadas incandescentes faziam até dobrar a esquina, com um abismo de sombra entre elas. Comigo dentro do abismo de sombras. Com uma mancha escura entre meus sapatos, entre as sombras entre as lâmpadas.
Eu lembro de tudo quieto. Eu lembro do frio na barriga, da sensação de querer acordar de um sonho, da sensação de querer estar sonhando, eu lembro do esforço para acordar na minha cama e me sentir aliviado por estar atrasado para o trabalho.
Eu lembro do som dos caminhões nas ruas paralelas, da vitrine semi-acesa da loja de conveniência fechada, do apito de um guarda a 1km de distância, da minha cabeça a 40km de distância.
Eu lembro de olhar para o painel do carro indo para algum lugar vindo de algum lugar para fazer alguma coisa, quando um baque seco e uma turbulência que fizeram meus pensamentos passarem de uma fumaça densa diante de meus olhos que olhavam para um ponto imaginario, para se tornar um ponto de exclamação seguido de um calafrio. Aquela hora que você acorda no acordar. A hora que tudo deixa de ser um longo túnel esticado pela distração, para tudo virar vida real esfregada no seu nariz. Essas coisas acontecem. 
Quando o carro parou, lembro de abrir a porta, pisar primeiro com o pé esquerdo na rua, me enroscar com o outro, dar uma tropeçada, olhar para os lados e me certificar que ninguém viu aquilo.
Eu lembro do desenho sinuoso que a mancha do lado do carro fazia no chão. As vezes parecia um jacaré, as vezes fazia o desenho de uma mão nosferática que se estendia até o outro lado, as vezes eu não pensava no formato que ela fazia, naqueles cinco segundos que me esforcei para entender o que estava acontecendo.
Eu lembro bem do corpo no chão. Eu lembro do jacaré e da mão do Nosferatu desenhada no chão saindo por debaixo do corpo. A mancha que aos poucos se expandia e perdia a forma, se tornando um círculo vermelho e preto no meio dos círculos alaranjados da rua.
Eu lembro de um corpo nu, murcho e rosado. Um corpo com pele que refletia quase como o sangue no chão. Um corpo amassado como papel, amassado como um desenho animado atropelado por um carro. Eu lembro de cabelos loiros enrolados, entrelaçados no corpo morto e retorcido como uma camisinha usada. 
Eu lembro do frio na barriga, da sensação de querer acordar de um sonho, da sensação de querer estar sonhando. Eu me lembro de fraturas expostas, fragmentos de osso, arcadas dentárias, capas de gordura espumosa e amarela espalhada pelo chão, lembro de espartilhos e cintas-liga misturadas com uma peruca loira misturada com látex misturada com a grande interrogação que meus pensamentos viraram.
Me lembro de olhar para cima, e alguém ofuscado pelo brilho do círculo alaranjado da lâmpada incandescente gritando “ele acabou de pular”. Da ponte, eu digo. Ele pulou. 
-“ele não morreu da queda. alguns carros passaram por cima”.
Eu lembro do frio na barriga.
-“Isso acontece sempre, mas esse aí era pervertido. Solitário. Pulou com uma boneca inflável. Você precisava ver o barulho que fez quando o primeiro carro passou. Nem foi da batida, foi da boneca explodindo mesmo.”
Por algum motivo, eu lembrei do que eu comi no almoço.
-“Se eu fosse você, iria embora. Esse aí era pervertido, as pessoas passaram por cima de propósito, parece. Imagina que vergonha, morrer assim desfigurado e pior ainda, com essa boneca do lado. Imaginam o que vão pensar?”
Por algum motivo, eu lembrei do que eu andava acessando na internet.
-“Ele disse que era mais fácil trepar com uma boneca e se atirar de uma ponte do que achar alguém que não fosse maluca.”
Lembro de perguntar se atirar-se de uma ponte era uma atitude de alguém que não fosse maluca também.
-“Se é normal eu não sei. Só sei que não foi o primeiro.”
Lembro de dar dois passos e ver a sola dos meus sapatos desenhada no chão, um carimbo perfeito feito de sangue, gordura e cabelo de poliéster. 
-“Mas acho que ele pulou porque descobriu que era doente também. Bom, pelo menos com essa boneca junto, ele não poderia ser normal”.
Lembro de ter perguntado se não estávamos fugindo do ponto principal da coisa.
-“Olha meu senhor, você pode estar em pedaços numa rua escura durante a noite, mas se você tiver alguma coisa que te faça parecer um pervertido, é a única coisa que todo mundo vai lembrar.”

32 comentários:

Tayná B disse...

Sinto como se minha respiração fosse suspensa durante o texto. Não vou falar muito, mas quero dizer que amo a maneira como você escreve, os parágrafos cíclicos e sua linha de raciocínio que, acho eu, é o seu diferencial. Além disso, é como se você transcrevesse a dor que o mundo todo sente e não sabe como expressar. Parabéns pelo texto e, sei lá, por todo o resto.

Fábio Andrade disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
PC Siqueira disse...

Poxa, Muito obrigado, Que bom que gostou (:

Macabeia disse...

Sensacional!Olha eu não sou lá uma grande adimiradora dos seus vídeos,confesso,eles são engraçados e talz...mas depois de um tempo assistindo eles passam a ser vazio,é como se vendo uns 10 vc ja tivesse assistido a todos.Agora como escritor,você é REALMENTE GENIAL, eu não conhecia esse lado teu,apoio para que escrevas mais e mais...devem existir muitas pessoas que estejam interessadas nos teus textos!Eu sou uma delas! Um super parabens!

Mia disse...

Concordo com as meninas que comentaram, seus textos são tocantes. Sim, eu gosto dos seus vídeos, mas seus textos tem um tipo de particularidade impressionante, que eu não via há muito tempo em alguém. Gosto da forma como você escreve, como você se expressa; talvez porque lembre a mim mesma, e eu consigo compreender cada palavra como se fosse eu mesma que tivesse as elaborado, como se elas nascessem de dentro do estômago e viessem até o cérebro para se tornar argumentos e perspectivas. Continue escrevendo. Você pode ter um futuro irresistivelmente perturbador nisso.

(E sim, é uma mania chata que eu tenho, mas costumo deixar o link do meu blog abaixo de comentários que eu faço. Vai que alguém passa lá e eu ganhe o meu dia. (:
http://miasodre.blogspot.com/ )

Tayná B disse...

Ei, essa resposta foi pra mim? Não esperava! Mesmo. Se foi, imagina. Foi sincero. :3

Dot Lira disse...

Incrivelmente feliz que ele tenha voltado a "bloggar". :D

Genki disse...

Incrível. só.

Gvn disse...

Muito bom o texto. Você devia escrever mais coisas. Escrevo contos e romances também e qualquer inspiração boa é bem vinda.

Meu blog: http://brogvn.blogspot.com/

Com risco de meu comentário ir para as trevas e com risco de.
Nada.
Mas eu me arrisco.

Ricardo. disse...

Já tinha lido essa no seu Tumblr, mas não faço nem farei questão de ler e reler suas postagens. Em sua grande maioria, todas ótimas, incríveis, oníricas, numa atmosfera distante, na atmosfera onde nada é real. Na atmosfera da cópia da cópia da cópia, nunca vi ninguém que deixasse mais profundo o toque peculiar e ao mesmo tempo desconcertante dos seus textos. Envolvente como Palahniuk, mau humorado como Schopenhauer ou Nietzsche, com esse toque que só o vlogger viciado em cafeína vesgo e tatuado mais legal tem. É louco, é diferente, é especial. Eu queria fazer uma "crítica" como um comentário decente ou bom, mas eu não consigo encontrar palavras chulas e agradáveis o bastante para definir sua arte. É maravilhoso, inspirante. Parabéns.
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Maspoxavida.

Marina Peppers disse...

Parecia um conto nonsense. Enfim... Achei ótimo esse texto. Consegui captar toda a energia que você colocou.
Seus textos são muito bem escritos. Dá para ver que você escreve com a alma, e é por isso que ficam tão bons.
Abraço!

Laís Ravache disse...

curti seu jeito de escrever e a crítica no final do texto, cara, muito bom!
Mas, sabe, por mais que eu venha gostando de cada escrito seu, fico com aquela sensação de não ter entendido tudo que você diz... O que dá um toque ainda mais interessante pra história.

E, se vc chegar a ler esse comentário, provavelmente leu os outros e espero que tenham servido de incentivo pra mais postagens! :)

Augusto disse...

‎A vida é uma ultrapassagem a 150 por hora numa ponte. Quando você percebe que não vai dar tempo de escapar do "trem bala" na contra mão a ultima coisa que você pensa é abrir o vidro e saltar no rio. Se você calcular vai ver que é possível fazer isso em 6 segundos, mas você não quer parar de correr quer? a gente nunca tira o pé do acelerador, a gente quer sempre mais daquilo que nos mata...

A.A ;)

Sabrina disse...

ótimos textos parabéns!

Sabrina disse...

ótimos textos parabéns!!

Leandro Ferreira disse...

Boa, muito boa PC. Sou fã do seu trabalho!

http://meuladoerrado.blogspot.com/

O Caminho Para A Vida disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Nephele Maurer disse...

As pessoas são hipócritas

Unknown disse...

MUUUITO BOM, PC. Até agora estou pensativo... Comecei a ler sem esperanças de me interessar, e no meio não conseguia parar de ler. Parabéns. Também gosto de escrever, sabe?

jeanlucio disse...

PC, gostei muito. Latex é uma obra prima. Se acharem que você é um pervetido, não há o que se faça. As pessoas julgam tudo pela aparência.

Mari disse...

Tu deve gostar daquele texto sobre masturbação que ficou famoso, do escritor do Fight Club. Tem muito a ver com seu estilo. Tu já deve ter lido.

ROGGER disse...

PC, acho que você deveria se lançar como escritor também. Você narra prosa muito bem e de uma forma que a gente se sente como se estivéssemos presenciando o fato, você está de parabéns.

Mari disse...

http://lendasurbanas.wordpress.com/2007/03/13/guts-chuck-palahniuk/

Débora Daminelli disse...

Uma palavra: NOSSA! É de dar frio na barriga a maneira como você se expressa. Parabéns, simplesmente sensacional!

alexandre fleming disse...

parabens pc sao verdades e voce a descreve ,quando leio sinto que esta acontecendo no mesmo momento é magnifico e inexplicavel.

voce tem jeito para muitas coisas.

Jéssica Curto disse...

Em primeiro lugar, devo dizer que o texto ficou muito bom, e acredito que se isso não for um hobbie, você deveria juntar todas essas ideias fantásticas e vender em um livro!
Certas pessoas nascem com determinados dons e as vezes nao sabem aproveitar, não deixe isso passar sem ao menos pensar no caso!
Em segundo lugar, eu tenho que dizer, este texto é maravilhoso, o quanto ele mostra o quanto as pessoas sao podres e vazias, umas cuidando da vida das outras, se preocupando com o que realmente não é importante, uma pessoa morta, exposta no chao e a sociedade se preocupa em querer saber do futebol, coisas importantes deixaram de ser importante, o ridiculo virou essencial!!
Muito bom mesmo, essa sua arte maravilhosa!!

Beijos,

Jéssica Curto.

Anndré LP disse...

Enquanto eu lia esse texto, eu ficava sem ar , eu começava a viajar e via imagens na minha cabeça relacionada ao texto, nossa foi muito massa isso, fazia muito tempo que nao sentia isso .

Victor Gonçalves disse...

Gostei Demais, me prendeu totalmente.

Yerecê Pereira disse...

po, caralho... tá no nível dos clássicos... aliás, tão original que criou um novo clássico ;) vou te ler sempre pq é uma abertura dos canais desconhecidos da cinzas que sobraram do meu cérebro. Você nunca imagina mas acredita piamente depois que lê.



Fernanda disse...

muito muito legal, eu sou muito ignorante para julgar o que é bom, mais achei brilhante;

Amanda disse...

Verdade, as pessoas não ligam se você está sofrendo, chorando, ou morrendo por dentro. Elas não se importam com a sua dor, porque pra elas é sempre mais fácil enxergar os seus defeitos do que refletir sobre o desconhecido, que no caso do texto, é o homem pulando da ponte com uma boneca inflável.

http://antigosdiarios.blogspot.com.br/

Super Escritor disse...

Nunca imaginei que você escrevesse tão bem. Gostei desse texto, me pareceu uma catarse iluminada e brutal, mais um testemunho de alguém que percebeu que somos ainda muito pouco evoluídos como seres humanos. Meus parabéns, continue escrevendo.