segunda-feira, 27 de abril de 2009

Dizem que a vida passa em flashes quando ela está por um fio. Ou um gatilho, ou qualquer coisa curta que dispara com pouca pressão.
Nunca vi esses flashes, nem os pedaços de filme passando, os momentos importantes, nem nada disso.
No caso do gatilho, minha cabeça continuou a mesma, com a diferença que estava prestes a ser explodida.  Explodida por alguma palavra errada, por um segundo a mais de descuido, por qualquer movimento brusco, ou olhar atravessado. Você passa por isso todo dia, com a arma invisível na mão de todo mundo em volta, sua cabeça explodindo invisivelmente na cabeça de todo mundo em volta. Essas coisas acontecem.
Também acontece, as vezes, com uma arma de verdade, na sua cabeça de verdade, que irá explodir de verdade. E tudo que eu pensava não eram os flashes, nem os filmes, nem na minha infância - eu só pensava no dedo prensado atrás do gatilho, no espasmo involuntário que faria aquela coisa disparar. Não na minha cabeça. Na cabeça dos outros. Minha cabeça que se exploda. Acho que nunca tive aquele senso de auto-preservação na presença de outros. Heróico ou suicida, tem sido assim. Deveria ser uma forma muito estúpida de morrer, assim numa segunda-feira, por volta das oito da noite na mão de um vagabundo qualquer que aparece na calçada. Virar estatística nunca foi meu plano de vida. A cidade está infestada. Somos todos pervertidos, mendigos, ladrões, viciados, pedófilos, maníacos, charlatões, vagabundos,  burocratas, contrabandistas, violadores, interesseiros, adúlteros, doentes, assassinos, desistentes. Convulsionando em objetivos dos quais não temos muita idéia do que se tratam, lutando por comida e aluguel, esperando um dia que jamais vai chegar,  por pessoas que jamais vão existir, e tentando ser alguém que jamais seremos. Estamos todos no mesmo barco e o barco está cheio até a boca, transbordando todo mundo, e a hora de todo mundo vai chegar.  Isso nao é o fim do mundo, porque o mundo é assim desde o começo até o fim. Reze para o seu Deus, chegue cedo no trabalho, pague seu aluguel, seja um cidadão de bem e quem sabe você esteja por um triz numa segunda-feira qualquer com um cano de aço roçando na sua blusa de lã.
Você sobrevive. O dia acaba e sua cabeça irá continuar explodindo por aí, na cabeça dos outros. 
Isso enquanto você tiver uma cabeça, é claro.

quinta-feira, 16 de abril de 2009


O silêncio desce assim que o sol se vai
Até o  mar se assusta quando a lua cresce.
É assim que as coisas são. Todo mundo sonha quando a noite cai.

Sônia sonhava também.
Sônia sonhava sempre. E sempre sonhava tanto que não sabia quando era sonho e quando era só verdade que sabia de cor.
Só verdade porque Sônia gostava mais do sonho. A verdade para a pequena era tão pouca tão a mesma todo dia, que sonhar a tornou muito melhor.

Sônia só não gostava quando sonhava com aqueles  bichos, que assustam e dão medo.
Mas sempre dava um jeito, antes que tudo ficasse ruim, ela simplesmente acordava mais cedo.

E quando acordava assim de repente, fingia que tudo era sonho novamente.
E tudo era tão gostoso naquele mundo estranho e diferente.
Outra vista, um quartinho diferente, era o que Sônia sonhava e imaginava. 
As vezes até outra casa mais engraçada, outro mundo ou outra cidade.
Era tão bom fazer de conta que tudo aquilo era verdade

quinta-feira, 9 de abril de 2009

quarta feira


enquanto minha pele vai se rompendo, no mormaço tardio de uma quarta feira, o sol que não é sol que só reflete nos prédios envidraçados e queima meus olhos quando olho pro alto, enquanto as pessoas passam milhares de vezes com seus óculos estúpidos e seus objetivos, visão de túnel, toda aquela coisa. Fumaça, semáforos, parques, poeira, enxaqueca, pessoas ruivas, bailarinas.
Eu, com meus óculos estúpidos e um imenso e pesado ponto de interrogação espetado na cabeça, tentando fugir de uma rotina sem escapatória, que me segue até nas próprias fugas da rotina. A vida segue incontrolável, e tudo que se pode fazer é observar atônito as coisas acontecendo em fast-foward. O tempo passa rápido, os dias se arrastam. O filme em loop, repete e repete, cada vez mais rápido e cada vez com menos sentido. No final das contas não sabemos mais quem é o protagonista, onde fica o final feliz, e onde estão os ganchos do roteiro. Olho pra calçada e imagino Chaplin girando no meio das engrenagens da revolução industrial. O filme gasto girando numa rotação maior para dar o tom cômico, a trilha sonora arranhada chiando o tempo todo, e de repente tudo volta num rewind para a calçada. E reparo que não não existe nenhuma diferença entre aquilo, e a cidade.
Penso no que dizer, no que não dizer, que passo dar, para onde ir, onde sentar, se devo ir, se devo ficar, inssistir, desistir, deixar de ligar, ligar. Desligar.
Tanto faz.
As coisas acontecem idependentemente de você. Sempre aconteceram, bem antes de estarmos aqui. Você se pergunta quem é o protagonista. Onde fica o final feliz. Quando começa, quando termina... e você se acostuma a observar atônito as coisas acontecendo em fast-foward.