terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Boom

4 e meia da manhã de outra manhã.
Os dias costumam se repetir, o sol nasce em todos eles, mas alguns dias não são tão repedidos  assim. Somos viciados em rotina e queremos acreditar que tudo está sob controle.
A quebra de um ciclo é como um pisão em falso, um degrau que você não vê, e você só repara quando o horizonte a sua frente treme, e sobe um pouco do nivel que estava antes. Um baque seco, uma súbida exclamação, um chão que não está lá, ou um poste que você não viu.
Boom, te pega de surpresa.
Você vê luzes piscando amarelas, azuis, vermelas, verdes, purpurina tilintando azul na frente dos seus olhos, o desenho de veias escuras e vermelhas ficando mais nítidas no canto da sua visão a cada pulsação. Uma leve tontura, um zunido no ouvido, e um cheiro de sangue que brota das suas vias nasais. 
Você nunca se acostuma com isso. Aquele embrulho no estômago e você leva suas mãos até seu rosto. Seu cérebro mandando imagens aleatórias e tentando dar algum sentido pra aquilo no momento de confusão, você simplesmente não sabe o que dizer. O mundo vive embreagado no tédio, mas a verdade é que ninguém quer uma parada brusca, uma guinada, um sobressalto.
Ninguém quer trocar um problema por outro, um prazer por outro, um problema por prazer, um prazer por um problema. Ninguém quer quebrar o ciclo, nem mudar de vida,  nem ser nada maior. Ninguém quer sentir o impacto.
Um impacto forte o suficiente faz com que seu cérebro balance dentro do seu crânio como um badalar de sino, e se for forte o suficiente, o seu cérebro esmagado contra a parede da sua prórpria cabeça vai mandar uma descarga elétrica para a sua espinha dorsal e vai fazer com que todos os seus membros entrem em falência instantânea, e que você perca os sentidos. Imagine um disjuntor estalando e desligando a força da sua casa para não queimar sua tv. Isso se chama nocaute. Te pega de surpresa. Você nunca se acostuma com isso.
Nós passamos a vida evitando o nocaute. Evitando o soco direto vindo no nosso nariz. Assalto após assalto, apelamos para o clinch até ficarmos exaustos numa luta onde não se ganha por pontos. Ninguém quer desferir o soco, e muito menos alguém quer levar o soco, sair com o olho roxo e apertado reluzente da pele esticada e inchada.
Uma luta infinita de homens e mulheres suados e exaustos e pesados que morrerão frustrados por nunca escutarem o gongo soar. O ciclo jamais se quebra.

Mas existem dias que o sol nasce, e alguem te soca a cara. Você vê as luzes brancas e amarelas e vermelhas e verdes. Você cai no chão e descansa.
E acorda pra um adversário melhor.

Zumbi

Eu não consigo mais dormir.
Eu sou um zumbi.
Nós zumbis, somos mais ou menos felizes, se formos comparados aos outros seres humanos que estão completamente vivos. Ser relativamente feliz enquanto morto-vivo, seria equivalente a ser completamente feliz enquanto completamente vivo. Não é o que acontece.
Eu sempre fui meio zumbi. As outras crianças não se davam bem comigo, e vice-versa. Nos dávamos bem dessa forma. Me perguntavam o que havia de errado comigo, a minha mãe perguntava, a minha professora perguntava, as meninas perguntavam. Os meninos não ligavam. Nunca houve nada de errado comigo além do fato de eu estar morto, mas vivo. Isso não é o fim do mundo. Existem coisas muito piores ( estar morto-morto, por exemplo). Se você está vivo, você se preocupa em não morrer, em continuar vivo, essas coisas. Se você está morto-vivo, você se preocupa com todas as outras coisas que não envolvem o fato de que você vai morrer.
Minha mãe diz que eu morri nos braços dela com poucos meses de vida, sempre me lembro dessa história horrível. Morri por algumas horas, uma espécie de coma. E quando ela desistiu - ela conta - eu voltei a viver.
O negócio é que eu não devo ter voltado inteiro. Acho que algum pedaço de mim deve ter ficado com Jesus, com Krishna, com Maomé, com Canom, com Isthar, com Kali, com Ísis, com a Opus-Dei ou qualquer outra coisa do tipo.  Eu acordei meio vesgo. Valeu, Deus.
Não é como se eu quisesse devorar cérebros. Nem como se eu me sentisse especial. Tem um monte de outros zumbis por aí, se fingindo de gente. A grande maioria muito mais legal do que eu. Não é como se eu tivesse inveja, todos nós estamos igualmente mortos mas vivos. Nos falta a alma dos iluminados, os jovens super nutridos, os sorridentes, os efusivos, os bronzeados, os que tem objetivos maiores, os que vão para Porto Seguro, os que choram em suas formaturas, os que penduram diplomas na parede, que gastam dinheiro com som estéreo no carro, que fazem poupanças para comprar um carro, e ignoram totalmente o fato de que algum dia, em algum momento fatídico e totalmente casual, eles vão morrer.
Se você já é meio morto, você repara nessas coisas.
A parte boa em ser zumbi, é que a vontade vem das entranhas. Não temos vontade de muita coisa, mas o que vale a pena dá frio na barriga. Aquela história toda de ficar querendo devorar as pessoas é um pouco exagerada. Na realidade não queremos sempre devorar as pessoas. A maior parte ficamos parados, entediados, olhando. As coisas não tem muita graça se você não se dá que vai morrer a qualquer momento. Nós zumbis tampouco vivemos para sempre. Nós nos tornamos completamente mortos, como você se tornará um dia também. A diferença é que nós estamos um pouco a frente do seu tempo, nesta questão de morrer. 
Quando eu era criança, frequentei a escola durante dois anos somente. Esses dois anos me marcaram profundamente, naquela época eu sentia vontade de devorar as coisas e as pessoas mas não entendia muito bem, o que me levava a não gostar delas e elas a não gostarem de mim. Tudo era problemático. Aprender matemática, jogar futebol, dançar quadrilha. Eu nunca consegui nem aprender matemática, nem jogar futebol, e muito menos dançar quadrilha. Eu tinha uma desculpa totalmente infalível pra me livrar pelo menos da quadrilha - "a minha religião não permite". 
Eu usava o artifício da religião de forma muito boa, pra livrar a minha cara. Muita gente faz isso hoje em dia, mas eu fazia para algo que era realmente bom. Dançar sempre foi algo absolutamente fora do meu alcance e entendimento. Me mexer, assim meio sem sentido, e ainda conseguir não parecer um completo imbecil, simplesmente não era pra mim. E continua sendo até hoje. Eu sou muito morto pra isso.
Como eu não dançava, não jogava bola, não sabia matemática e ainda era de uma religião desconhecida, eu tinha muita sorte em ser um zumbi já naquela época. Seria trágico se eu fosse tão vivo quanto os outros. 
Eu tinha uns amigos. Um gordo que ria de tudo e que cuspia enquanto falava e por isso todo mundo tinha nojo, um baixinho hiperativo que tinha uma mania terrível encostar a língua no seu próprio queixo e por causa disso teve uma assadura causada pela saliva, que fez um desenho vermelho em carne viva e perfeito de uma boca cartunesca logo abaixo de sua boca de verdade, e um outro nerd, que jamais pronunciava nenhuma palavra e chorava por qualquer motivo.
Eu descobri que por algum motivo, o nosso grupo tinha a fama de morar na favela. Nós éramos os "meninos que moravam na favela". Eu nunca morei numa favela. Mas aquilo despertava um certo medo nas outras crianças, e elas me deixavam em paz. Nós conversávamos sobre Cavaleiros dos Zodíaco, muito embora eu não assisisse esse desenho. Mas eu falava sobre ele mesmo assim. Foi aí que eu descobri meu talento para fingir que entendo e me interesso pelos assuntos. Nós éramos assim, meio mortos, mas vivos. Essa era a segunda vez que eu fazia a primeira série na escola, eu tinha uns 8 anos. 
Da primeira vez, eu estava tão morto que a única coisa que lembro é de estar todo dia numa fila pra entrar na aula e ficar atrás de um menino filho de ciganos, que tinha um cabelo comprido com cheiro de incenso, e aquilo me enjoava.
Alguns meses depois meus pais desistiram de me manter na escola. Eu acho que talvez eles também sejam zumbis, nunca se sabe.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Aleatório

Escrever aleatóriamente é como andar na rua sem um objetivo e sem o risco de ser atropelado.
É como chutar alguém sentado na escada do metrô e fazê-la rolar abaixo, sem fazer uma vítima.
É como procrastinar um conteúdo de valor produzindo um rastro de lixo linguistico.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

13/02/2009

Tenho trabalhado bastante.
De dia, de noite.
Eu não trabalho exatamente para ganhar dinheiro. Eu tinha um objetivo maior de me tornar alguma coisa que o dinheiro não podia comprar porque na época eu não pensava em dinheiro. Ultimamente eu penso mas na falta dele, ou as vezes em ganhar na loteria e me encher dele de uma vez só e me tornar uma pessoa que compra tudo com o dinheiro e não precisa se tornar nada.
Não que o objetivo tenha se perdido, ele está aqui em algum lugar embora não tenha muita forma e seja dificil de discernir.  Não penso mais em objetivos. Depois de um tempo as coisas começam a perder a forma. Olhe muito pra alguma coisa até você deixar de vê-la e se pegar pensando no se seu cachorro enxerga em preto e branco ou colorido.
Eu troquei o dia pela noite.
Antes eu lutava contra o sono, quando eu parei de lutar eu venci. O corpo levemente dolorido, a sensação do ácido lático borrifando nos seus músculos flácidos do sedentarismo, as superfícies dos seus membros formigando pela falta de circulação sanguínea, suas palpebras descendo involuntariamente e um gosto adstringente de café amanhecido nas papilas gustativas do fundo da sua língua.
Tudo isso se foi.
Depois de um tempo as coisas começam a perder sua forma. O sono chega quando eu me deito. O café é sempre doce e reconfortante, se você se lembrar de não ferver a água antes de passar no coador.  A noite é quieta. As pessoas dormem. Os cachorros dormem, os peixes dormem, a cidade dorme.  Os que não dormem trabalham para um objetivo que esqueceram, se embebedam,  estão tentdo orgasmos ou qualquer outra coisa que faça ter alguns momentos sólidos de individualidade sem sentido. Existir por existir. A gente faz o que pode. A madrugada tem um cheiro fresco, é toda lâmpadas e aviões e táxis e pessoas relativamente perigosas e outras pessoas perigosamente frágeis perambulando indo umas atrás das outras, fazendo entregas, rindo, pensando na vida ou não pensando em nada e todas escutando um chiado desértico e a própria palpitação quando o semáforo fica vermelho.  30 segundos de respiração, ar gelado entrando pelas narinas inundando os pulmões, olhando para o console do carro, para as faixas na rua, para os mendigos, para a luz acesa num apartamento com uma leve curiosidade em saber porque aquela pessoa está fumando na sacada naquela hora.

Na madrugada todo mundo vira poeta, as coisas funcionam de forma diferente porque é nessa hora que as coisas começam a perder a forma.