terça-feira, 11 de agosto de 2009

Ontem

Nasci por volta das onze horas da manhã de sábado, no ano de mil novecentos e oitenta e seis, num hospital do município de Guarulhos.
Gravidez de risco, disse o médico. Eu deveria ter nascido com três pernas, um olho só ou alguma coisa horrível do tipo. Eu sobrevivi, e minha mãe também. Tenho duas pernas e dois olhos não muito alinhados, mas sobrevivi bem.
Tenho poucas lembranças da minha época de muito muito novo. Quanto mais o tempo passa, mais as memórias vão se esvanescendo. Lembro de brincar no quintal, no canteiro onde minha mãe tinha uma horta. Eu gostava dos tatu-bola. Acho que eles não gostavam muito de mim.
Lembro de morar ao lado da casa do meu primo, e de brincar num terreno baldio atrás da minha casa. Lembro também de muitos machucados. Eu sempre estava com um corte, um roxo ou alguma parte do meu corpo doendo. Eu nunca fui uma criança travessa.
As vezes acho que meus pais pensavam que eu era autista, mas isso é só uma suspeita. Lembro que fui à praia, pela primeira vez. Eu disse algo como "é muito grande" enquanto corria para dentro da água, de roupa e tudo. A praia continua grande, mas meu intusiasmo sobre ela diminuiu drasticamente.
Meu quarto era maior. Tinha a impressão de ter um quarto do tamanho de uma quadra de tênis. Muito pela cor verde do carpete, das quais eu raspava meu joelho diariamente deixando marcas vermelhas e dolorosas. Quando você é pequeno, tem a impressão de que tudo é enorme, mas nunca percebe que no caso, você é pequeno.
A gente cresce e o resto diminui, logo o quarto não tem o tamanho suficiente. Mas nunca temos mais valor do que uma bola de tênis na quadra. A gente fica meio como a rede. Parado alí olhando a bolinha ir de um lado para o outro, as vezes acertando nosso saco.
Os meus maiores medos eram : Morrer de fome como os documentários sobre a África, Freddy Kruegger, ser engolido pelo vaso sanitário após dar a descarga (o que se transformou num pavor terrível sobre dar a descarga durante um tempo) e terremotos. Eu morria de medo dos terremotos. Posteriormente também adquiri um medo muito grande do filme O Exorcista.
Acho que fiz parte da parte ovelha-negra da família toda. E da minha própria família também.
Eu não dava a mínima para o Ayrton Senna, eu não ligava pros Mamonas Assassinas, eu não gostava de futebol, nunca soube o nome das marcas de carros bacanas, não sabia empinar pipa, fingia que assistia Cavaleiros do Zodíaco para fazer uma social com os amiguinhos.
Eu gostava dos meus bonecos. Tinha 3. Passava o dia inteiro em algum canto da casa inventando alguma história com eles. Algumas duravam mais de 3 dias, eu acordava empolgado para continuar brincando porque tinha criado uma história interessante.
Gostava de videogame, também. Ficava tão imerso, que mesmo após parar de jogar, ainda imaginava que tudo era um jogo de videogame. As vezes até me convencia disso.
Eu gostava de guerras, armas, coisas explodindo e pessoas morrendo. Quando eu era pequeno, eu torcia para que houvesse uma terceira guerra mundial. Minha mãe dizia que "a terceira guerra mundial virá, e a bomba atômica faria o juízo final". Você cresce esperando o juízo final que está sempre próximo, e ele nunca chega.
Sempre fui o menor dos meninos. Preferia os que não tinham vida social como eu. Eles sabiam inventar histórias muito mais interessantes e não tentavam me bater. Com 12 anos eu sabia de cor o nome dos modelos de armas mais usadas no mundo. Gostava dos monstros, dos vilões, dos garotos que metralhavam os colegas de classe nos Estados Unidos. Gostava de dinossauros. Tomahawks. Bússolas. Gostava de balas de goma, de café com leite. Gostava de boxe, de hamsters. Torradas e karatê.
Passei mais da metade da minha vida dentro do meu quarto.
Queria engolir o mundo com tudo que tinha dentro.
Você cresce e repara que já estava sendo engolido pelo mundo faz tempo.

56 comentários:

nathaliafuentes disse...

"Você cresce esperando o juízo final que está sempre próximo, e ele nunca chega."
Ri muito com essa parte do texto.
Gostei bastante do seu estilo de escrever... E me identifiquei um tanto com a sua infância... vou acompanhar seu blog agora =)

Abraço!

Bruna Uliana. disse...

Quando eu era pequena eu também achava tudo muito grande pra mim, e fazia de tudo um objetivo: crescer e alcançar tal coisa, fazer do meu quarto alguma coisa do meu tamanho (aí que começou a bagunça e tudo, haha). Lógico que tem coisas que ainda são grandes - e fora de alcance - pra mim, mas tanto faz.
Me identifiquei com isso, e mais ainda sobre o medo do Freddy Kruegger, que continua até hoje, HAHAHAHA.

MaLu Oliveira disse...

Olá =]
Por acaso vc é o PC Siqueira que tá colorindo a versão da desenhista brasileira da HQ Alice in Wonderland?!
Vi num site de novidades e gostei muito, aí joguei no google e vc foi o primeiro q apareceu...
Vou esperar uma confirmação antes de te elogiar (!)...De qualquer forma, que bom que a gravidez de risco da sua mãe foi bem sucedida!
bjo, té mais

Ferdi disse...

Quando eu era pequena lembro de querer assistir "Bananas de Pijamas" e ter primos mais velhos que queriam assistir "Cavaleiros do Zodíaco" na mesma televisão, na minha televisão, daí eles me batiam.
Aliás, um monte de gente estava sempre me batendo porque dizia que eu era feia ou esquisita.
E eu tinha criação de tatu-bola, com um primomais velho, a gente pegou uma caixa de costura antiga da minha avó e fez um super oásis, até banho quente neles nós dávamos, mas mesmo assim eles morriam, não sabíamo porquê..
Escrevendo isso meu irmão falou "ermã, eu consigui mais dois tatu-bolas pra minha coleção".
Enfim.. me deu nostalgia.

Louise Boeck disse...

Eu também já fui engolida pelo mundo. Desde então crio mundos e engulo todos eles. Mas nem sou esquizofrênica e ainda sinto uma breve satisfação. Mas é falsa, o que não me deixa satisfeita. Bom, vou parar de escrever. (P.S.: Eu adoro balas de goma em forma de minhoca que têm dois sabores, são muito boas).

Morgana Gomes disse...

Soou assustador, ás vezes.

Thalita Covre disse...

Ri um pouco lendo este post.
Espero que isso tudo que contou seja mais imaginação do que realidade...

rs

Ísis Paes disse...

legal!

L. disse...

Eu te vi na TV (e adorei o seu jeitooooooo) e cá estou pra te prestigiar...vc realmente escreve bem...gostei, gostei...vc será minha leitura sempre, tenha certeza!

E quanto aos pedidos de casamento, namoros, por conta do " maspoxavida"...quem sabe vc não se dá bem né??? rsrsrsrs...

e quanto aos seus olhos nada alinhados...é seu charmeeeeee.....ameiiiiiii.

bacio!!!

Rodrix30 disse...

É muita onda esse cara. Me indentifico com suas observaçoes.

Roberta Reelings disse...

Todo o mundo é igual,ninguem percebe...

Rodrix30 disse...

O que é interessante é que ele é ele mesmo talvez isso aproxime o que temos de cumum que é sermos seres humanos

NaNa Caê disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
GRAYCE disse...

vc tem era um garotinho com grande potencial para ser um guerrilheiro rrsr loko 3ºra mundial hahhaa quanto a:"Você cresce esperando o juízo final que está sempre próximo, e ele nunca chega." Quando eu era pequena não q seja muito alta...mas quando tinha meus 8 anos morria de medo!

/dramaqueen*-* disse...

não precisa crecer muito para perceber que está sendo engolindo pelo mundo faz tempo...Acho que sempre soube disso, mas só agora que a gente realmente vêe

joao disse...

Bem... não ri ao ler esse texto, ao contrário, tive uma sensação de nostalgia... interessante como você descreveu sua relação com o mar... a minha é idêntica... a empolgação passa... no que se refere a tudo, sempre passa...

Cs truques e macetes disse...

Pc no seu proximo video fala sobre a bola da copa , muitas pessoas falam que ela é amldiçuada fele sobre isso por favor ! obg

Cs truques e macetes disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
saideorbita disse...

Adorei seu blog, mais até do que seu vlog. Você é realmente um gênio, abçs.

Andrey disse...

"copy of copy of copy" tudo ja foi engolido faz tempo...

parabéns pelos textos, sou só um cara de 17 anos de idade que gosta do seu hobby, passatempo, desabafo, trabalho, não sei definir isso de um jeito que não te ofenda.

obrigado por compartilhar.

Walkley disse...

Caracas Pc.. eu achei mei drástica e ao mesmo tempo fenomenal sua crônica de ´´ontem´´ impressionante, gostei muito ainda mais do jeito que você escreve as coisas!! Um abraço.

Bruno Zucherato disse...

gostei muito da forma como você escreve ela é impessoal e familiar ao mesmo tempo, tem um tipo de "rotiniedade" própria de um ser humano qualquer, não é pra ser um herói então sempre supera nossas expectativas, você também enfatiza pequenas coisas que em um primeiro golpe de vista não são importantes, mas são detalhes que para um olhar mais atento faz muita diferença

Erick Soul disse...

apesar da minha preguiça de escrever aqchei seu blog muito bom depois comentarei valeu pc

isabellaind disse...

Aaaah pc, hahahaha.
Adoro seus textos, adoro seus desenhos, você tem muito talento, adoro assistir ao maspoxavida e sempre que eu lembro eu passo aqui mesmo sabendo que você não atualiza a um tempo...
Acho que você deve ser uma pessoa muito interessante, cheio de ideias e opiniões.
Agora você deve tá achando que eu sou maluca, mas eu não sou (: só acho voce muito legal e tava procurando um jeito de dizer isso.

Ponto Final disse...

"Muito interessante... Você escreve muito bem, PC! Parabéns!"

quandochegares disse...

Pior é quando você cresce e vê que não basta o mundo engolir você, ele acaba engolindo até o que a gente sempre pensou ser só nosso, nossa mente e o que a gente pensa. Pior ainda é saber que cada lembrança nossa vai acabar sendo substituída por outra, essa bem menos importante.
Escrever ajuda a lembrar, ou pelo menos a fantasiar e imaginar com foi. É bom de qualquer maneira.

Stephanie disse...

Adorei esse relato sobre a infância, me inspirou até em fazer o meu. Mas me vem a insegurança: a lembrança tá em constante mudança, quando vc era pequeno não via o q vivia como vc vê, olhando pra trás, agora...

Gostei de conhecer mais uma faceta interessante do PC. Parabéns pelo bem sucedido blog!

. Priscila Santos' disse...

Nossa, amei o texto, mi identifiquei muito, porque sempre fuii muito desligada e diferente de todo mundo, tambem fazia um mundo incrivel enquanto brincava, e ele parecia tão real :D você se expressa muito bem enquanto escreve, parabens '

Raquel disse...

Gostei demais desse texto!! Tão verdadeiro e sincero!
É tão legal ser estranho! Eu sempre fui café com leite nos jogos da escola, gostava muito de tatu-bola tb, sempre fui meio autista, criava histórias fantásticas com meus ursinhos, brincava sozinha com "muitas de mim"...sinto saudades dessa época! Onde tudo era tão menos real, mais possível de ser inventado! E meu quarto bastava pra me fazer feliz!

lais disse...

pq vc não escreve mais no blog????

Guilherme disse...

Eu suponho que é humanamente impossível ler todos estes comentários, mas, se por algum acaso os seus olhos caírem neste aqui, digo, ao menos um deles... Bom, eu já deixei o meu crédito na piada infame, mas queria dizer que a vida introspectiva torna boa parte do mundo um saco. Ele não aceita o que se pensa e vice-versa. Mas eu espero que você nutra admiração por coisas menos violentas...

May Vasconcelos disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
May Vasconcelos disse...

Gravidez de risco, pois é a minha também, legal você lembrar de um pouco que seja da sua infancia, eu não tenho esse privilégio, você escreve bem. I'm always here with you, can be sure.

Samuk Dias ! disse...

hmm! Sua maneira de escrever é legal... Me identifiquei com algumas partes do texto, principalmente a parte do "assistir CDZ pra fazer social com os amigos". Tbm era, ou melhor, sou do tipo q fica no quarto destruindo o mundo la fora e criando o meu proprio...soh isso... Sao as malditas incompletudes humanas!

Carolyne disse...

nosso decorou o nome das armas *O*
eu sou meio assim, adorava as aulas de história só para saber das desgraças do passado e adorava.

Carolyne disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Carolyne disse...

nosso decorou o nome das armas *O*
eu sou meio assim, adorava as aulas de história só para saber das desgraças do passado e adorava.

Gabriella disse...

Pc, sempre gostei mto de vc e lendo esse post, percebi q vc é mais lgl do q mostra nos videos e na tv...
Espero q vc faça muito mais sucesso do q ta fazendo, pq vc merece.
PS: eu acho seus olhos lindos!!

Georgette. disse...

Me identifiquei tanto que chorei. Por mais que você pense que se isolar é o melhor remédio, assim como odiar o mundo, ninguém faz isso por querer. Isso nasce com a gente e acredito que levaremos isso por toda vida. Eu adorava/adoro torradas (:

disse...

Oi Pc, gosto de seu jeito, de expressar suas idéias sem medo de ser o que realmente sente e é, li sobre vc, eu também tinha medo e tenho até hoje do filme O exorcista, quanto ao juízo final, quando garotinha tinha medo da música do Roberto Carlos Apocalipse, nem gosto, eu chorava de ver o clipe no Fantástico e ouvi-la me dá medo.
Sou sua fã, bjsss...

Mary disse...

as vezes você pareceu meio piscicopata como na parte:
"adorava armas,coisas esplodindo e pessoas morrendo"

Lucélia disse...

Se tivesse lido esse texto sem saber a quem pertencia, com certeza não imaginaria você, pensaria em algum psicopata ou algo parecido... Pelos traumas e interesses(estranhos)... Você é muito talentoso, amo seus vídeos, programa e e agora seus textos...

Rodrigo Santos disse...

Cara... eu já havia lido alguma coisa sua por aqui e achado muito bom. Mas poxa, me identifico muito, muito mesmo. Já devem ter te falado isso, alguns pra fazer uma média, outros que realmente se identificaram. Mas eu digo da forma mais sincera que eu me identifico de verdade.
Sempre fui uma criança reservada. Sempre me achei meio triste. Eu fazia o que era normal pro mundo pq eu não queria pessoas me julgando... sempre tive medo de julgamentos, apesar de que sempre eram inevitáveis.
Enfim.. poderia falar mil coisas aqui, sabe. Ver que existe pessoas como a gnt é confortante, apesar de que não faz a mínima diferença saber que outra pessoa sofre ou sofria como a gnt. Mas é confortante sim.
Escrever me ajudou muuuuito. E acredito que isso tenha funcionado comigo como funcionou com seu vídeo-game ou suas histórias inventadas... válvula de escape.
Sei que vc deve ter muita coisa guardada por aí... não deixe de postar aqui. Alguém sempre precisa de palavras.
Te admiro como pessoa, acredite. Tudo de bom aí.. e força no seu tratamento ^^

Vanessa Perez disse...

Ser criança é muito bom, nao deveriamos crescer jamais.

Vanessa Perez disse...

Ser criança é bom demais, nao podemos ignorar ela quando crescemos.

Charlotte Monroe disse...

Bom, todo mundo vai ter que crescer um dia.Por mais que não deseje. De qualquer forma devemos amadurecer, e morrer, é só encarar isso e só, pois faz parte da vida.

Duda . disse...

Eu amei!!

Giovani Belinato disse...

É véio, vc tem q voltar a escrever...

Profuuuundo.. glup!

Cabo Frio Surf disse...

Caro PC, ao ler seu blog (que eu não imaginaria que existia), concluí que os estilos literários são mais autênticos quando vivenciado pelo autor. Hunter Thompson morreria de novo de orgulho, caso estivesse doidão e lesse seu texto. Parabéns.

Fernanda disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Marion Rodrigues disse...

http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=TXsu7btbZ4A

Marion Rodrigues disse...

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Super Escritor disse...

Macabro e bom.