terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Zumbi

Eu não consigo mais dormir.
Eu sou um zumbi.
Nós zumbis, somos mais ou menos felizes, se formos comparados aos outros seres humanos que estão completamente vivos. Ser relativamente feliz enquanto morto-vivo, seria equivalente a ser completamente feliz enquanto completamente vivo. Não é o que acontece.
Eu sempre fui meio zumbi. As outras crianças não se davam bem comigo, e vice-versa. Nos dávamos bem dessa forma. Me perguntavam o que havia de errado comigo, a minha mãe perguntava, a minha professora perguntava, as meninas perguntavam. Os meninos não ligavam. Nunca houve nada de errado comigo além do fato de eu estar morto, mas vivo. Isso não é o fim do mundo. Existem coisas muito piores ( estar morto-morto, por exemplo). Se você está vivo, você se preocupa em não morrer, em continuar vivo, essas coisas. Se você está morto-vivo, você se preocupa com todas as outras coisas que não envolvem o fato de que você vai morrer.
Minha mãe diz que eu morri nos braços dela com poucos meses de vida, sempre me lembro dessa história horrível. Morri por algumas horas, uma espécie de coma. E quando ela desistiu - ela conta - eu voltei a viver.
O negócio é que eu não devo ter voltado inteiro. Acho que algum pedaço de mim deve ter ficado com Jesus, com Krishna, com Maomé, com Canom, com Isthar, com Kali, com Ísis, com a Opus-Dei ou qualquer outra coisa do tipo.  Eu acordei meio vesgo. Valeu, Deus.
Não é como se eu quisesse devorar cérebros. Nem como se eu me sentisse especial. Tem um monte de outros zumbis por aí, se fingindo de gente. A grande maioria muito mais legal do que eu. Não é como se eu tivesse inveja, todos nós estamos igualmente mortos mas vivos. Nos falta a alma dos iluminados, os jovens super nutridos, os sorridentes, os efusivos, os bronzeados, os que tem objetivos maiores, os que vão para Porto Seguro, os que choram em suas formaturas, os que penduram diplomas na parede, que gastam dinheiro com som estéreo no carro, que fazem poupanças para comprar um carro, e ignoram totalmente o fato de que algum dia, em algum momento fatídico e totalmente casual, eles vão morrer.
Se você já é meio morto, você repara nessas coisas.
A parte boa em ser zumbi, é que a vontade vem das entranhas. Não temos vontade de muita coisa, mas o que vale a pena dá frio na barriga. Aquela história toda de ficar querendo devorar as pessoas é um pouco exagerada. Na realidade não queremos sempre devorar as pessoas. A maior parte ficamos parados, entediados, olhando. As coisas não tem muita graça se você não se dá que vai morrer a qualquer momento. Nós zumbis tampouco vivemos para sempre. Nós nos tornamos completamente mortos, como você se tornará um dia também. A diferença é que nós estamos um pouco a frente do seu tempo, nesta questão de morrer. 
Quando eu era criança, frequentei a escola durante dois anos somente. Esses dois anos me marcaram profundamente, naquela época eu sentia vontade de devorar as coisas e as pessoas mas não entendia muito bem, o que me levava a não gostar delas e elas a não gostarem de mim. Tudo era problemático. Aprender matemática, jogar futebol, dançar quadrilha. Eu nunca consegui nem aprender matemática, nem jogar futebol, e muito menos dançar quadrilha. Eu tinha uma desculpa totalmente infalível pra me livrar pelo menos da quadrilha - "a minha religião não permite". 
Eu usava o artifício da religião de forma muito boa, pra livrar a minha cara. Muita gente faz isso hoje em dia, mas eu fazia para algo que era realmente bom. Dançar sempre foi algo absolutamente fora do meu alcance e entendimento. Me mexer, assim meio sem sentido, e ainda conseguir não parecer um completo imbecil, simplesmente não era pra mim. E continua sendo até hoje. Eu sou muito morto pra isso.
Como eu não dançava, não jogava bola, não sabia matemática e ainda era de uma religião desconhecida, eu tinha muita sorte em ser um zumbi já naquela época. Seria trágico se eu fosse tão vivo quanto os outros. 
Eu tinha uns amigos. Um gordo que ria de tudo e que cuspia enquanto falava e por isso todo mundo tinha nojo, um baixinho hiperativo que tinha uma mania terrível encostar a língua no seu próprio queixo e por causa disso teve uma assadura causada pela saliva, que fez um desenho vermelho em carne viva e perfeito de uma boca cartunesca logo abaixo de sua boca de verdade, e um outro nerd, que jamais pronunciava nenhuma palavra e chorava por qualquer motivo.
Eu descobri que por algum motivo, o nosso grupo tinha a fama de morar na favela. Nós éramos os "meninos que moravam na favela". Eu nunca morei numa favela. Mas aquilo despertava um certo medo nas outras crianças, e elas me deixavam em paz. Nós conversávamos sobre Cavaleiros dos Zodíaco, muito embora eu não assisisse esse desenho. Mas eu falava sobre ele mesmo assim. Foi aí que eu descobri meu talento para fingir que entendo e me interesso pelos assuntos. Nós éramos assim, meio mortos, mas vivos. Essa era a segunda vez que eu fazia a primeira série na escola, eu tinha uns 8 anos. 
Da primeira vez, eu estava tão morto que a única coisa que lembro é de estar todo dia numa fila pra entrar na aula e ficar atrás de um menino filho de ciganos, que tinha um cabelo comprido com cheiro de incenso, e aquilo me enjoava.
Alguns meses depois meus pais desistiram de me manter na escola. Eu acho que talvez eles também sejam zumbis, nunca se sabe.

11 comentários:

Cami Fiamoncini disse...

Já disse e repito: até os 30 vou ficar rica. Aï eu vou pra SP, te rapto e te levo fazer umas coisas doidas de vivo-vivo.

;*

PS: escreve tão bem qto desenha.

Guilherme Luis disse...

Aposto que todas já pararam para pensar, mesmo as pessoas mais "vivas", que um dia deixarão de existir

Líria disse...

eu tb sou zumbi...nao durmo a noite, pois eh a unica hora calma e q posso ficar realmente sozinha e com meus pensamentos, n acho graça d nada, mas faço qando tenho q fazer, sou palida e apatica, tanto faz algumas decisoes, meio aqi meio la, pessoas nem ligo tanto...enfim, eu gostei do seu texto

Casa Design & Cia disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Beatriz Paz disse...

Cara que texto foda!

Na boa, acho q pessoas como vc tem muito mais perspectiva de vida do que muita gente por ai que se acha "vivo"

Gostei do sarcasmo ;D

NaNa Caê disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Well disse...

Ri horrores do "Existem coisas muito piores ( estar morto-morto, por exemplo)." +1

definitavemente, eu sou um zumbi, e fazia tempo que não achava outro zumbi que não tivesse receio de admiti-lo, é.

Thi disse...

pc sou mto curioso pra saber como era a sua infancia e o se dia a dia cara, adorei esses relatos, e tipo tenho orgulho de vc por se aceita do modo com é!

PS. posta + no blog por favor

Rob disse...

muito bom o texto, minha infância não foi como a sua. Mas acho que a maioria das pessoas já tiveram o seu momento de zumbi, mas nunca percebem ou tentam ignorar isso como se fosse algo estranho, por que diante da sociedade isso é estranho e a maioria não quer ser diferente da sociedade. Não sou um Zumbi, mas vamos colocar que as vezes gosto de ser um zumbi.

R.Nara disse...

Adimiro demais você PC, tomara que tenha muito sucesso!

Aline disse...

Eu sou uma zumbi mas, às vezes, gostaria de não ser, fico pensando se quem é normal é feliz. =|