terça-feira, 11 de agosto de 2009

Ontem

Nasci por volta das onze horas da manhã de sábado, no ano de mil novecentos e oitenta e seis, num hospital do município de Guarulhos.
Gravidez de risco, disse o médico. Eu deveria ter nascido com três pernas, um olho só ou alguma coisa horrível do tipo. Eu sobrevivi, e minha mãe também. Tenho duas pernas e dois olhos não muito alinhados, mas sobrevivi bem.
Tenho poucas lembranças da minha época de muito muito novo. Quanto mais o tempo passa, mais as memórias vão se esvanescendo. Lembro de brincar no quintal, no canteiro onde minha mãe tinha uma horta. Eu gostava dos tatu-bola. Acho que eles não gostavam muito de mim.
Lembro de morar ao lado da casa do meu primo, e de brincar num terreno baldio atrás da minha casa. Lembro também de muitos machucados. Eu sempre estava com um corte, um roxo ou alguma parte do meu corpo doendo. Eu nunca fui uma criança travessa.
As vezes acho que meus pais pensavam que eu era autista, mas isso é só uma suspeita. Lembro que fui à praia, pela primeira vez. Eu disse algo como "é muito grande" enquanto corria para dentro da água, de roupa e tudo. A praia continua grande, mas meu intusiasmo sobre ela diminuiu drasticamente.
Meu quarto era maior. Tinha a impressão de ter um quarto do tamanho de uma quadra de tênis. Muito pela cor verde do carpete, das quais eu raspava meu joelho diariamente deixando marcas vermelhas e dolorosas. Quando você é pequeno, tem a impressão de que tudo é enorme, mas nunca percebe que no caso, você é pequeno.
A gente cresce e o resto diminui, logo o quarto não tem o tamanho suficiente. Mas nunca temos mais valor do que uma bola de tênis na quadra. A gente fica meio como a rede. Parado alí olhando a bolinha ir de um lado para o outro, as vezes acertando nosso saco.
Os meus maiores medos eram : Morrer de fome como os documentários sobre a África, Freddy Kruegger, ser engolido pelo vaso sanitário após dar a descarga (o que se transformou num pavor terrível sobre dar a descarga durante um tempo) e terremotos. Eu morria de medo dos terremotos. Posteriormente também adquiri um medo muito grande do filme O Exorcista.
Acho que fiz parte da parte ovelha-negra da família toda. E da minha própria família também.
Eu não dava a mínima para o Ayrton Senna, eu não ligava pros Mamonas Assassinas, eu não gostava de futebol, nunca soube o nome das marcas de carros bacanas, não sabia empinar pipa, fingia que assistia Cavaleiros do Zodíaco para fazer uma social com os amiguinhos.
Eu gostava dos meus bonecos. Tinha 3. Passava o dia inteiro em algum canto da casa inventando alguma história com eles. Algumas duravam mais de 3 dias, eu acordava empolgado para continuar brincando porque tinha criado uma história interessante.
Gostava de videogame, também. Ficava tão imerso, que mesmo após parar de jogar, ainda imaginava que tudo era um jogo de videogame. As vezes até me convencia disso.
Eu gostava de guerras, armas, coisas explodindo e pessoas morrendo. Quando eu era pequeno, eu torcia para que houvesse uma terceira guerra mundial. Minha mãe dizia que "a terceira guerra mundial virá, e a bomba atômica faria o juízo final". Você cresce esperando o juízo final que está sempre próximo, e ele nunca chega.
Sempre fui o menor dos meninos. Preferia os que não tinham vida social como eu. Eles sabiam inventar histórias muito mais interessantes e não tentavam me bater. Com 12 anos eu sabia de cor o nome dos modelos de armas mais usadas no mundo. Gostava dos monstros, dos vilões, dos garotos que metralhavam os colegas de classe nos Estados Unidos. Gostava de dinossauros. Tomahawks. Bússolas. Gostava de balas de goma, de café com leite. Gostava de boxe, de hamsters. Torradas e karatê.
Passei mais da metade da minha vida dentro do meu quarto.
Queria engolir o mundo com tudo que tinha dentro.
Você cresce e repara que já estava sendo engolido pelo mundo faz tempo.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Sobre a procrastinação

"Procrastinação" foi a última palavra que me lembro ter aprendido. Sempre me faltou uma palavra que descrevesse esta coisa, essa coisa de evitar o inevitável, só por evitar e parecer evitável.
Aprender esta palavra e seu significado, foi como descobrir uma cor nova, um signo novo, uma nova nota musical. E sempre soou como uma cor cinzenta mas não cinza nem matizada, um signo perdido entre o solstício e as revoluções, entoado numa nota entre o trítono e o sacro.
"Procrastinar" soa bem, apesar dos pesares.
Se diz que procrastinar, é como masturbação : a sensação é boa, mas você só está fodendo consigo mesmo.
Procrastinar, é escrever num blog. Procurar inspiração. Fazer algo inútil para que consiga começar algo útil. É tomar o caminho mais longo e estático, porque o caminho mais curto é muito enérgico.
É o deixar para depois, e depois deixar um pouco mais. Inflar a realidade com gas hélio, engraçado, vazio e volátil. Observar as coisas em câmera lenta, de trás-para-frente, e observar de novo, não prestar atenção, e ver pela terceira vez. Tamborilar no braço do sofá, tomar um café. É o botão "soneca" do celular. Mais cinco minutos. Mais vinte minutos. Mais uns dias.
Procrastinar é pegar a existência uma vez sólida e compacta, e esticá-la num fio finíssimo e longo. É viver numa bola de chiclete, enorme e cheia de ar por dentro até estourar. E daí fazer outra bola.
Procrastinação é homeopatia, fazer tudo em pequenas doses, um pouco por vez, e um pouco de tudo. Procrastinação é procurar sinônimos e adjetivos, palavras e coisas para continuar escrevendo antes de chegar a uma conclusão final.

Procrastinar é evitar a conclusão final no fim depois que acaba.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Por que eu mereço uma semana de graça no Pto?


Bom, para começar, eu nunca fui à escola. Sério. Então eu ficava em casa 24 horas por dia, e tinha poucos amigos.
Hoje trabalho como colorista de histórias em quadrinhos, para uma editora americana. Comecei desenhando em cima da máquina de costura da minha mãe, uma Singer de 1950 (a máquina, não minha mãe).
Passaram-se anos e anos e eu continuo na casa da minha mãe, só que agora tenho um monitor grande e tenho uma tablet. Minha mãe continua meio xarope. E eu tenho muito trabalho pra fazer, e prazos apertados para entregar. O problema é - Minha mãe ainda exerce certa autoridade (também conhecida como ganhar no grito) - , o suficiente para fazer eu levantar da minha mesa para tirar roupas do varal, parar de trabalhar para gravar DVDs das novelas coreanas que ela assiste, largar meus prazos para lavar o quintal ou dar banho nos cachorros, e ainda por cima usa meu celular. Antes que alguém me censure, saibam que eu gosto da minha mãe. Mas não dá para trabalhar e morar com ela ao mesmo tempo, e também não dá para alugar uma outra casa ainda sozinho... mas os prazos não ligam muito para esse fato, então eu tenho que fazer mesmo assim. Uma das soluções foi não dormir de madrugada, e aproveitar para trabalhar enquanto todos estão dormindo... mas isso me transformou num zumbi acéfalo e não quero mais isso para a minha vida.
Ou seja, eu mereço uma semana de alívio no Pto de Contato, só para ver que ainda há esperanças no mundo.
Obrigado.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Dizem que a vida passa em flashes quando ela está por um fio. Ou um gatilho, ou qualquer coisa curta que dispara com pouca pressão.
Nunca vi esses flashes, nem os pedaços de filme passando, os momentos importantes, nem nada disso.
No caso do gatilho, minha cabeça continuou a mesma, com a diferença que estava prestes a ser explodida.  Explodida por alguma palavra errada, por um segundo a mais de descuido, por qualquer movimento brusco, ou olhar atravessado. Você passa por isso todo dia, com a arma invisível na mão de todo mundo em volta, sua cabeça explodindo invisivelmente na cabeça de todo mundo em volta. Essas coisas acontecem.
Também acontece, as vezes, com uma arma de verdade, na sua cabeça de verdade, que irá explodir de verdade. E tudo que eu pensava não eram os flashes, nem os filmes, nem na minha infância - eu só pensava no dedo prensado atrás do gatilho, no espasmo involuntário que faria aquela coisa disparar. Não na minha cabeça. Na cabeça dos outros. Minha cabeça que se exploda. Acho que nunca tive aquele senso de auto-preservação na presença de outros. Heróico ou suicida, tem sido assim. Deveria ser uma forma muito estúpida de morrer, assim numa segunda-feira, por volta das oito da noite na mão de um vagabundo qualquer que aparece na calçada. Virar estatística nunca foi meu plano de vida. A cidade está infestada. Somos todos pervertidos, mendigos, ladrões, viciados, pedófilos, maníacos, charlatões, vagabundos,  burocratas, contrabandistas, violadores, interesseiros, adúlteros, doentes, assassinos, desistentes. Convulsionando em objetivos dos quais não temos muita idéia do que se tratam, lutando por comida e aluguel, esperando um dia que jamais vai chegar,  por pessoas que jamais vão existir, e tentando ser alguém que jamais seremos. Estamos todos no mesmo barco e o barco está cheio até a boca, transbordando todo mundo, e a hora de todo mundo vai chegar.  Isso nao é o fim do mundo, porque o mundo é assim desde o começo até o fim. Reze para o seu Deus, chegue cedo no trabalho, pague seu aluguel, seja um cidadão de bem e quem sabe você esteja por um triz numa segunda-feira qualquer com um cano de aço roçando na sua blusa de lã.
Você sobrevive. O dia acaba e sua cabeça irá continuar explodindo por aí, na cabeça dos outros. 
Isso enquanto você tiver uma cabeça, é claro.

quinta-feira, 16 de abril de 2009


O silêncio desce assim que o sol se vai
Até o  mar se assusta quando a lua cresce.
É assim que as coisas são. Todo mundo sonha quando a noite cai.

Sônia sonhava também.
Sônia sonhava sempre. E sempre sonhava tanto que não sabia quando era sonho e quando era só verdade que sabia de cor.
Só verdade porque Sônia gostava mais do sonho. A verdade para a pequena era tão pouca tão a mesma todo dia, que sonhar a tornou muito melhor.

Sônia só não gostava quando sonhava com aqueles  bichos, que assustam e dão medo.
Mas sempre dava um jeito, antes que tudo ficasse ruim, ela simplesmente acordava mais cedo.

E quando acordava assim de repente, fingia que tudo era sonho novamente.
E tudo era tão gostoso naquele mundo estranho e diferente.
Outra vista, um quartinho diferente, era o que Sônia sonhava e imaginava. 
As vezes até outra casa mais engraçada, outro mundo ou outra cidade.
Era tão bom fazer de conta que tudo aquilo era verdade

quinta-feira, 9 de abril de 2009

quarta feira


enquanto minha pele vai se rompendo, no mormaço tardio de uma quarta feira, o sol que não é sol que só reflete nos prédios envidraçados e queima meus olhos quando olho pro alto, enquanto as pessoas passam milhares de vezes com seus óculos estúpidos e seus objetivos, visão de túnel, toda aquela coisa. Fumaça, semáforos, parques, poeira, enxaqueca, pessoas ruivas, bailarinas.
Eu, com meus óculos estúpidos e um imenso e pesado ponto de interrogação espetado na cabeça, tentando fugir de uma rotina sem escapatória, que me segue até nas próprias fugas da rotina. A vida segue incontrolável, e tudo que se pode fazer é observar atônito as coisas acontecendo em fast-foward. O tempo passa rápido, os dias se arrastam. O filme em loop, repete e repete, cada vez mais rápido e cada vez com menos sentido. No final das contas não sabemos mais quem é o protagonista, onde fica o final feliz, e onde estão os ganchos do roteiro. Olho pra calçada e imagino Chaplin girando no meio das engrenagens da revolução industrial. O filme gasto girando numa rotação maior para dar o tom cômico, a trilha sonora arranhada chiando o tempo todo, e de repente tudo volta num rewind para a calçada. E reparo que não não existe nenhuma diferença entre aquilo, e a cidade.
Penso no que dizer, no que não dizer, que passo dar, para onde ir, onde sentar, se devo ir, se devo ficar, inssistir, desistir, deixar de ligar, ligar. Desligar.
Tanto faz.
As coisas acontecem idependentemente de você. Sempre aconteceram, bem antes de estarmos aqui. Você se pergunta quem é o protagonista. Onde fica o final feliz. Quando começa, quando termina... e você se acostuma a observar atônito as coisas acontecendo em fast-foward.

quinta-feira, 19 de março de 2009

do pó ao pó

é só o pó
que volta ao pó
estava só
que dava dó

eu segurava pelo corrimão eu olhava atonito pro chão
eis a questão
e vi tudo girar no arco-íris da saponificação

eu tava lá
quase não dá
pra desmaiar
ratificar

atravassava pela contra-mão eu costurava vendo ton sur ton
dia dos bons
e vi tudo descer no no giro surdo do carrossel de sons

eu fui morrer
nem deu pra ver
nem pra dizer
"vai se foder"

O barulho foi que nem canhão e me vestiram com um terno marrom 
juntei as mãos
e vi tudo enegrecer no pregoar do meu caixão.

confessionário

Ah a saudade
a saudade que de dia levanta
saudade que não mais me encanta
a lambrança do nó na garganta
de quem canta e seus males espanta

ah a vontade
a vontade que mata e destrói
a vontade que mente e corrói
soda cáustica dissolve e constrói
a vontade que vem e me dói

Se você sabe então diga pra mim
você não sabe o perigo que corre, meu bem
eu não sou desses de aceitar ficar sem
o que não começa não termina assim

ah a tristeza
que já veio e ja foi com certeza
que mistura torpor com beleza
não me deixa pensar com clareza
E esfria o café sobre a mesa

Ah a solidão
que me faz muito mais do que são
que eu forjo meu próprio grilhão
onde fujo na inspiração
que não passa de um truque vão

Se você sabe então diga pra mim
você não sabe o perigo que eu corro, veja bem
Eu que sempre aceitei ficar sem
o que termina começa no fim.

sem jeito

Sempre fui um cara estranho
desses assim meio sem jeito
sempre estive assim perdido
desses que nunca sabem direito
Ainda me lembro bem
Anil quarando a roupa
Dos meus tempos de criança
Casa de portas abertas
Tempos de lembrança
Não sabia o que era o errado
Todas as coisas eram certas
Cata-ventos, vão-e-vem
Belas tardes de sábado
No anil do céu profundo
O triste é ter perdido tudo
Cego surdo e mudo
Pensando em matar todo mundo.
o nó na garganta
fica etéreo
no acidente aéreo.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Poker Face

Quando as palavras lhe faltam, a melhor coisa a fazer é calar a boca.
Quanto mais você tem a dizer, menos palavras ocorrem. Quanto menos você fala, mais você pensa.
Quanto mais você pensa, mais coisas você tem a dizer. 
É um paradoxo perfeito para levar você contra você mesmo. Aquele tipo de sabotagem que fazemos a nós mesmos quando temos alguma oportunidade. O auto-flagelo. A força sedutora de se ajoelhar. Jogar nas mãos de Deus.
Bem, se você fizer isso, você está fodido. Se não fizer, também está. Estamos todos fodidos, de qualquer forma.
Não é o fim do mundo.
Temos medo de nos foder. De falar a coisa errada. De não falar nada. Temos medo de comprometimento, medo da solidão, medo de magoar e medo de ficarmos magoados.  Temos medo de pensar demais, de não pensar em nada, de perder. Medo de ganhar e não ser o que queríamos. Medo de descartar. De fazer a próxima jogada.
Você faz uma aposta e não paga pra ver. Blefa até todo mundo perder, e quando você se da conta, nem participou do jogo.
Poker face.
Chega uma hora que você acha que aprende com seus erros, mas não percebe que aprende apenas a não errar de novo. Acertar nunca. Blefar blefar até todo mundo errar e você sair invicto.  Não errar de novo consiste no próprio erro. Um desses paradoxos perfeitos pra nos fazer ir contra nós mesmo. 
O medo de tentar. O medo de pensar errado fez com que nós parássemos de pensar. O medo de falar a coisa errada, nos tornou mudos. O medo de ver algo que não queremos, nos deixou cegos. O medo de fazer a coisa errada, deixou-nos estáticos.
Assim, medrosos, vazios, surdos, cegos e amputados.
E pensar que a gente se fode de uma forma ou de outra.
O medo de fazer algo se tornou parte de nós. Uma verdade que ninguém assume, mas que faz parte de todos.
Um dia vou fazer uma tatuagem. Um dia eu vou sair e pescar. Um dia eu vou beijá-la. Um dia eu vou aprender a pilotar uma moto. Um dia eu vou ser exatamente quem eu sou, sem precisar vestir este paletó. Um dia todos nós vamos morrer, e esse é o único dia que chega com a mais absoluta certeza. Você vive e sente que tem esse algo de errado.  Essa atmosfera de vontade reprimida. Aquelas palavras não ditas que devoram você de pouco em pouco. Os dias passam e você está com aquela sensação de que tinha que fazer algo mas não sabe o que é. Nem lembra mais. Aquilo perpetua. Vivemos o agora pensando no depois, sem fazer nada durante o agora e consequentemente não acontecendo nada no depois. Não fazemos nada, para evitar os acontecimentos ruins que fazer algo pode acarretar. Como se nada, fosse bom. Na falta de bom, a ausência de tudo é melhor que a presença de algo ruim. É assim que se desce.
Já que sempre pensamos na consequência, é sempre bom lembrar que no final, tudo que você faz, é tudo o que você fez. Tudo que você diz, é tudo que você disse.
Mas quando as palavras lhe faltam, o melhor é calar a boca.
E fazer alguma coisa antes que o jogo acabe.

domingo, 8 de março de 2009

Herói.

Somos heróis.
Todo mundo precisa de heróis. Nos consideramos heróis. 
Nosso heroísmo passa de geração para geração. Nossos problemas, nossas conquistas. Ressureição, dar a volta por cima, vencer o inimigo. Essas coisas.
Ninguém é vilão, pelo menos ninguém quer ser.
Nós não nos assumimos como pessoas ruins. Há sempre um porém, um motivo. Um não foi minha culpa, ou um mas se não fosse por este motivo, tudo estaria bem.
Pense em você como um vilão.
Pense um pouco mais.
E se no final das contas, fôssemos exatamente tudo aquilo que negamos ser? E se formos filhos da puta? Traidores, oportunistas, interesseiros, invejosos, raivosos, depravados, infelizes, preconceituosos.
Se não fôssemos filhos de Deus? Ninguém olhando por nós. Olho por olho e dente por dente.
E se os hipócritas não forem realmente hipócritas?
A gente sempre erra. Podemos errar a respeito disso. A respeito de nós mesmos.
Imagine você, um maldito confesso. Sem remorso. Apenas sendo quem você é. Um maldito.
É tão ruim assim? Afinal de contas, todo mundo parece tão vazio e distante. Menos nós. Nós somos os mártires, o estandarte da nobreza do espírito. E se nós fossemos os hipócritas?
Quanto tempo isso duraria? E se nós fôssemos desistentes, deprimidos, frustrados, sempre querendo algo que não temos e não precisamos, se nós amamos pouco, se descartamos os outros.
Quem seriam os heróis? Pra onde foi todo mundo?
E se a vida não tivesse sentido algum, apenas existência pura e simples e ao acaso? Ou se o amor não fosse amor e só reações químicas que seu cérebro faz somente pra fazer você espalhar seus genes tão pateticamente como fazem as flores com o pólen? E se o tempo passasse tão rápido que você não vê os dias chegarem, e nós iremos morrer em breve e sem nenhuma vida após isso? Nenhum presente, nenhum céu. Preto. Puf. Você se pergunta.
O que sobraria? Com ou sem sentido, as coisas continuam. Não depende de ninguém.
Um dia você acorda, no outro dia não.
Um dia você tem vontade, no outro dia não.
Um dia, você tenta, no outro desiste.
Um dia você desiste, no outro você ganha um novo herói.
Um dia você tem vontade, no outro você não acorda.
Nunca se sabe.
Preto. Puf.
Quando todo mundo está ficando louco, menos você, quem é o louco?
Quem você escolhe ser, o herói ou o vilão?
Você se pergunta.
Tem dias que não parecem dias. São dias que vem como trégua. 
Você senta e não faz nada. E nada. Num dia você sente vontade, no outro dia você quer.
Tem dias que não dão trégua. 
Tem outros que te fazem bem.
Mesmo se você for o vilão.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Boom

4 e meia da manhã de outra manhã.
Os dias costumam se repetir, o sol nasce em todos eles, mas alguns dias não são tão repedidos  assim. Somos viciados em rotina e queremos acreditar que tudo está sob controle.
A quebra de um ciclo é como um pisão em falso, um degrau que você não vê, e você só repara quando o horizonte a sua frente treme, e sobe um pouco do nivel que estava antes. Um baque seco, uma súbida exclamação, um chão que não está lá, ou um poste que você não viu.
Boom, te pega de surpresa.
Você vê luzes piscando amarelas, azuis, vermelas, verdes, purpurina tilintando azul na frente dos seus olhos, o desenho de veias escuras e vermelhas ficando mais nítidas no canto da sua visão a cada pulsação. Uma leve tontura, um zunido no ouvido, e um cheiro de sangue que brota das suas vias nasais. 
Você nunca se acostuma com isso. Aquele embrulho no estômago e você leva suas mãos até seu rosto. Seu cérebro mandando imagens aleatórias e tentando dar algum sentido pra aquilo no momento de confusão, você simplesmente não sabe o que dizer. O mundo vive embreagado no tédio, mas a verdade é que ninguém quer uma parada brusca, uma guinada, um sobressalto.
Ninguém quer trocar um problema por outro, um prazer por outro, um problema por prazer, um prazer por um problema. Ninguém quer quebrar o ciclo, nem mudar de vida,  nem ser nada maior. Ninguém quer sentir o impacto.
Um impacto forte o suficiente faz com que seu cérebro balance dentro do seu crânio como um badalar de sino, e se for forte o suficiente, o seu cérebro esmagado contra a parede da sua prórpria cabeça vai mandar uma descarga elétrica para a sua espinha dorsal e vai fazer com que todos os seus membros entrem em falência instantânea, e que você perca os sentidos. Imagine um disjuntor estalando e desligando a força da sua casa para não queimar sua tv. Isso se chama nocaute. Te pega de surpresa. Você nunca se acostuma com isso.
Nós passamos a vida evitando o nocaute. Evitando o soco direto vindo no nosso nariz. Assalto após assalto, apelamos para o clinch até ficarmos exaustos numa luta onde não se ganha por pontos. Ninguém quer desferir o soco, e muito menos alguém quer levar o soco, sair com o olho roxo e apertado reluzente da pele esticada e inchada.
Uma luta infinita de homens e mulheres suados e exaustos e pesados que morrerão frustrados por nunca escutarem o gongo soar. O ciclo jamais se quebra.

Mas existem dias que o sol nasce, e alguem te soca a cara. Você vê as luzes brancas e amarelas e vermelhas e verdes. Você cai no chão e descansa.
E acorda pra um adversário melhor.

Zumbi

Eu não consigo mais dormir.
Eu sou um zumbi.
Nós zumbis, somos mais ou menos felizes, se formos comparados aos outros seres humanos que estão completamente vivos. Ser relativamente feliz enquanto morto-vivo, seria equivalente a ser completamente feliz enquanto completamente vivo. Não é o que acontece.
Eu sempre fui meio zumbi. As outras crianças não se davam bem comigo, e vice-versa. Nos dávamos bem dessa forma. Me perguntavam o que havia de errado comigo, a minha mãe perguntava, a minha professora perguntava, as meninas perguntavam. Os meninos não ligavam. Nunca houve nada de errado comigo além do fato de eu estar morto, mas vivo. Isso não é o fim do mundo. Existem coisas muito piores ( estar morto-morto, por exemplo). Se você está vivo, você se preocupa em não morrer, em continuar vivo, essas coisas. Se você está morto-vivo, você se preocupa com todas as outras coisas que não envolvem o fato de que você vai morrer.
Minha mãe diz que eu morri nos braços dela com poucos meses de vida, sempre me lembro dessa história horrível. Morri por algumas horas, uma espécie de coma. E quando ela desistiu - ela conta - eu voltei a viver.
O negócio é que eu não devo ter voltado inteiro. Acho que algum pedaço de mim deve ter ficado com Jesus, com Krishna, com Maomé, com Canom, com Isthar, com Kali, com Ísis, com a Opus-Dei ou qualquer outra coisa do tipo.  Eu acordei meio vesgo. Valeu, Deus.
Não é como se eu quisesse devorar cérebros. Nem como se eu me sentisse especial. Tem um monte de outros zumbis por aí, se fingindo de gente. A grande maioria muito mais legal do que eu. Não é como se eu tivesse inveja, todos nós estamos igualmente mortos mas vivos. Nos falta a alma dos iluminados, os jovens super nutridos, os sorridentes, os efusivos, os bronzeados, os que tem objetivos maiores, os que vão para Porto Seguro, os que choram em suas formaturas, os que penduram diplomas na parede, que gastam dinheiro com som estéreo no carro, que fazem poupanças para comprar um carro, e ignoram totalmente o fato de que algum dia, em algum momento fatídico e totalmente casual, eles vão morrer.
Se você já é meio morto, você repara nessas coisas.
A parte boa em ser zumbi, é que a vontade vem das entranhas. Não temos vontade de muita coisa, mas o que vale a pena dá frio na barriga. Aquela história toda de ficar querendo devorar as pessoas é um pouco exagerada. Na realidade não queremos sempre devorar as pessoas. A maior parte ficamos parados, entediados, olhando. As coisas não tem muita graça se você não se dá que vai morrer a qualquer momento. Nós zumbis tampouco vivemos para sempre. Nós nos tornamos completamente mortos, como você se tornará um dia também. A diferença é que nós estamos um pouco a frente do seu tempo, nesta questão de morrer. 
Quando eu era criança, frequentei a escola durante dois anos somente. Esses dois anos me marcaram profundamente, naquela época eu sentia vontade de devorar as coisas e as pessoas mas não entendia muito bem, o que me levava a não gostar delas e elas a não gostarem de mim. Tudo era problemático. Aprender matemática, jogar futebol, dançar quadrilha. Eu nunca consegui nem aprender matemática, nem jogar futebol, e muito menos dançar quadrilha. Eu tinha uma desculpa totalmente infalível pra me livrar pelo menos da quadrilha - "a minha religião não permite". 
Eu usava o artifício da religião de forma muito boa, pra livrar a minha cara. Muita gente faz isso hoje em dia, mas eu fazia para algo que era realmente bom. Dançar sempre foi algo absolutamente fora do meu alcance e entendimento. Me mexer, assim meio sem sentido, e ainda conseguir não parecer um completo imbecil, simplesmente não era pra mim. E continua sendo até hoje. Eu sou muito morto pra isso.
Como eu não dançava, não jogava bola, não sabia matemática e ainda era de uma religião desconhecida, eu tinha muita sorte em ser um zumbi já naquela época. Seria trágico se eu fosse tão vivo quanto os outros. 
Eu tinha uns amigos. Um gordo que ria de tudo e que cuspia enquanto falava e por isso todo mundo tinha nojo, um baixinho hiperativo que tinha uma mania terrível encostar a língua no seu próprio queixo e por causa disso teve uma assadura causada pela saliva, que fez um desenho vermelho em carne viva e perfeito de uma boca cartunesca logo abaixo de sua boca de verdade, e um outro nerd, que jamais pronunciava nenhuma palavra e chorava por qualquer motivo.
Eu descobri que por algum motivo, o nosso grupo tinha a fama de morar na favela. Nós éramos os "meninos que moravam na favela". Eu nunca morei numa favela. Mas aquilo despertava um certo medo nas outras crianças, e elas me deixavam em paz. Nós conversávamos sobre Cavaleiros dos Zodíaco, muito embora eu não assisisse esse desenho. Mas eu falava sobre ele mesmo assim. Foi aí que eu descobri meu talento para fingir que entendo e me interesso pelos assuntos. Nós éramos assim, meio mortos, mas vivos. Essa era a segunda vez que eu fazia a primeira série na escola, eu tinha uns 8 anos. 
Da primeira vez, eu estava tão morto que a única coisa que lembro é de estar todo dia numa fila pra entrar na aula e ficar atrás de um menino filho de ciganos, que tinha um cabelo comprido com cheiro de incenso, e aquilo me enjoava.
Alguns meses depois meus pais desistiram de me manter na escola. Eu acho que talvez eles também sejam zumbis, nunca se sabe.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Aleatório

Escrever aleatóriamente é como andar na rua sem um objetivo e sem o risco de ser atropelado.
É como chutar alguém sentado na escada do metrô e fazê-la rolar abaixo, sem fazer uma vítima.
É como procrastinar um conteúdo de valor produzindo um rastro de lixo linguistico.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

13/02/2009

Tenho trabalhado bastante.
De dia, de noite.
Eu não trabalho exatamente para ganhar dinheiro. Eu tinha um objetivo maior de me tornar alguma coisa que o dinheiro não podia comprar porque na época eu não pensava em dinheiro. Ultimamente eu penso mas na falta dele, ou as vezes em ganhar na loteria e me encher dele de uma vez só e me tornar uma pessoa que compra tudo com o dinheiro e não precisa se tornar nada.
Não que o objetivo tenha se perdido, ele está aqui em algum lugar embora não tenha muita forma e seja dificil de discernir.  Não penso mais em objetivos. Depois de um tempo as coisas começam a perder a forma. Olhe muito pra alguma coisa até você deixar de vê-la e se pegar pensando no se seu cachorro enxerga em preto e branco ou colorido.
Eu troquei o dia pela noite.
Antes eu lutava contra o sono, quando eu parei de lutar eu venci. O corpo levemente dolorido, a sensação do ácido lático borrifando nos seus músculos flácidos do sedentarismo, as superfícies dos seus membros formigando pela falta de circulação sanguínea, suas palpebras descendo involuntariamente e um gosto adstringente de café amanhecido nas papilas gustativas do fundo da sua língua.
Tudo isso se foi.
Depois de um tempo as coisas começam a perder sua forma. O sono chega quando eu me deito. O café é sempre doce e reconfortante, se você se lembrar de não ferver a água antes de passar no coador.  A noite é quieta. As pessoas dormem. Os cachorros dormem, os peixes dormem, a cidade dorme.  Os que não dormem trabalham para um objetivo que esqueceram, se embebedam,  estão tentdo orgasmos ou qualquer outra coisa que faça ter alguns momentos sólidos de individualidade sem sentido. Existir por existir. A gente faz o que pode. A madrugada tem um cheiro fresco, é toda lâmpadas e aviões e táxis e pessoas relativamente perigosas e outras pessoas perigosamente frágeis perambulando indo umas atrás das outras, fazendo entregas, rindo, pensando na vida ou não pensando em nada e todas escutando um chiado desértico e a própria palpitação quando o semáforo fica vermelho.  30 segundos de respiração, ar gelado entrando pelas narinas inundando os pulmões, olhando para o console do carro, para as faixas na rua, para os mendigos, para a luz acesa num apartamento com uma leve curiosidade em saber porque aquela pessoa está fumando na sacada naquela hora.

Na madrugada todo mundo vira poeta, as coisas funcionam de forma diferente porque é nessa hora que as coisas começam a perder a forma.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Começando o dia.

Meu dia começou a tarde.
E se seguiu pesado e sonolento durante toda a tarde, até a noite cair um pouco menos pesada. Na verdade nem me lembro o que fiz.  Eu lembro de chuva, noticiário, estacionamentos caindo e toda aquela coisa de quando chove.  
Eu tenho um problema quando eu fico sem trabalho - eu simplesmente não tenho mais nada para fazer da minha vida.
As vezes as coisas são um saco. As coisas são amargamente previsíveis, e as pessoas por sua vez, são terrivelmente imprevisíveis. Nesse momento eu me pergunto se estou escrevendo de acordo com a nova ortografia. De qualquer forma o café nunca me pegou de surpresa. Eu acredito que a grande diferença entre o café, as pessoas e as coisas é que o café perde suas propriedades originais quando você ferve a água, e as pessoas simplesmente não tem propriedades originais. E nem adianta colocar açúcar. E as coisas... bem, você não pode beber as coisas, né.
De qualquer forma, meu dia se extendeu. Até que eu resolvi sair. Antes de sair eu recebi conselhos sobre não morrer, não estar em engavetamentos, em tragédias, em dilúvios, em tiroteios e sobre não cometer crimes e como pode eu querer sair numa chuva daquelas.
Desci a rua Homero Roxo com minhas botas respingando água das calhas e reparei que por mais que o lugar não seja um subúrbio, era mais deprimente que um cortiço. Peguei um ônibus até o metrô.
O metrô sempre me deixou fascinado. Talvez pela época de loucura que eu frequentava esse meio de transporte mais assíduamente, mas por algum motivo andar de metrô me lembra ter alucinações. 
Dormi no Jabaquara. Acordei no túnel, dormi de novo, acordei na Conceição. Tirei uma foto com o celular. Acordei não sabia onde. Acordei na Praça da Árvore. Desci e atravessei o corredor gelado até entrar na rua Gravi. Quando subi a escada da academia estava tudo escuro, com homens recolhendo tatames. A chuva tinha causado goteiras, e iriamos lutar no molhado. Eu sempre sou o menor, em todos os lugares que eu vou. Por uma combinação do meu próprio tamanho com o fato de eu gostar de fazer coisas que não são pro meu tamanho. 
Boxe simples - jab, direto, cruzado, upper. Combinações. Calejamento de coxa com combinações de jab+direto, quebramento de joelho, como tirar alguem de combate e coisas do gênero. Calejamento de antebraço, hematomas, alguém dizendo que eu aguentava muito bem.
Treinamos com facas, pontos moles - carótida, carótida, desce cortando o esterno, corte na barriga, testículo, estocada na artéria femoral, corte ascendente, pescoço, olhos, Xis, subclave.
Falou-se sobre silenciamento de sentilelas. Se você estocar uma faca no rim de uma pessoa, a vazão de sangue é tão grande que ela morre em 15 segundos. Segure ela pelo nariz e tape a boca antes de fazer o ataque.
Uma estocada na base do crânio a pessoa não tem nem tempo de emitir algum som.
Vivendo e aprendendo.
Continuei meu dia que ja era noite seguindo ao encontro do meu primo. Minha mãe comenta que a família não existe mais. Comi um hamburguer. Relatei paranóias. Bebi coca-cola, reclamei da vida e as coisas de sempre que me fazem sentir mais vivo. Mais um ônibus. Nós não iríamos dormir.
A noite acabou de forma esplêndia, tão boa quanto Deus poderia fazê-la.
Não dormi, mas acordei na Avenida Paulista, as 6 horas da manhã. Andei, hesitei, tirei uma foto com o meu celular. A cidade parece mais bonita as vezes e fiquei imaginando como eu me sairia como um sem-teto. Cheguei a conclusão de que não me sairia bem e iria cheirar mal. 
Comprei crédito de celular e um livro. Tomei mais café, liguei para umas pessoas e ninguém atendeu. Acho que eu estava incomodando.
Acordei no ônibus.
Acordei em casa no sofá e cheio de hematomas e com a boca aberta ainda de botas e gelado.